Canetas emagrecedoras ajudam a reduzir o consumo de álcool? Médico explica
Estudos indicam que medicamentos como a semaglutida podem atuar no cérebro e diminuir o desejo por bebidas alcoólicas
O uso das chamadas “canetas emagrecedoras”, como a semaglutida, pode ir além da perda de peso e ajudar também na redução do consumo de álcool. A hipótese ganhou força após a publicação de um estudo clínico na revista científica The Lancet, que apontou efeitos relevantes do medicamento em pessoas com obesidade e transtorno por uso de álcool.
A pesquisa, considerada robusta por especialistas, acompanhou 108 adultos durante 26 semanas. Os participantes que utilizaram semaglutida apresentaram uma redução de 41% nos dias de consumo pesado de álcool, além de melhorias em marcadores biológicos relacionados ao uso da substância, como enzimas hepáticas. Os dados reforçam o potencial terapêutico do medicamento, que já é amplamente utilizado no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.

Segundo o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, o efeito dessas medicações vai além da saciedade física. “Esses fármacos atuam diretamente em áreas cerebrais relacionadas ao sistema de recompensa, podendo reduzir não apenas a fome, mas também o desejo por substâncias como o álcool.”, explica.
O especialista destaca que o mecanismo envolve o hormônio GLP-1, responsável pela regulação do apetite e pela modulação de circuitos neurais. “O cérebro passa a responder de forma diferente aos estímulos de recompensa. Isso contribui para a redução de comportamentos compulsivos, inclusive aqueles relacionados ao consumo de álcool”, afirma.
Apesar dos resultados promissores, o médico ressalta que o uso não deve ser realizado sem acompanhamento especializado. “Ainda não se trata de uma indicação formal para o transtorno por uso de álcool. Estamos diante de evidências relevantes, que ainda necessitam ser confirmadas por estudos mais amplos e de maior duração”, pontua José Israel.
Outro ponto relevante é que os resultados foram observados em um grupo específico: indivíduos com obesidade associada ao consumo excessivo de álcool. O especialista ressalta: “Não é possível generalizar. Cada caso deve ser avaliado de forma individualizada, considerando o histórico clínico e o perfil do paciente.”
O estudo também demonstrou benefícios adicionais, como perda de peso significativa, redução da circunferência abdominal e melhora de parâmetros metabólicos. Para o especialista, isso pode representar um avanço no manejo integrado. “Trata-se de uma abordagem com potencial para atuar simultaneamente em múltiplas condições de saúde, o que é altamente relevante na prática clínica”, afirma.
Ainda assim, José Israel reforça que a medicação não substitui outras estratégias terapêuticas. “O tratamento do transtorno por uso de álcool permanece multidisciplinar, envolvendo acompanhamento psicológico, mudanças de hábitos e suporte contínuo”, conclui.
Os resultados abrem caminho para novas possibilidades terapêuticas, mas também evidenciam a necessidade de mais estudos para confirmar esses efeitos em diferentes perfis de pacientes e no longo prazo.